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ENTREVISTAS

Entrevista com Luana de Noialles
A moda é como um reconhecimento
POR JACQUES DE BEAUVOIR

Tarde ensolarado, mar da Boca do Rio e o belo apê do artista plástico Gilson Rodrigues - cenário perfeito para bate-papo com a baiana Luana de Noialles. Sempre esfuziante, a primeira modelo brasileira a fazer sucesso em passarelas internacionais recebeu o [B]Bahia Vitrine[/B] usando modelito assinado pelo costureiro francês Christian Lacroix ("Vocês merecem"). Em temporada baiana, depois de uma década, Luana tem 40 anos de Paris e continua fazendo moda. Confira a entrevista.


Jacques de Beauvoir
Discretamente você chegou à cidade em novembro passado. Pouquíssimas aparições. A última foi no réveillon de Licia Fabio. Isso não é realmente do seu feitio.
Luana
Foram dez anos sem vir a Salvador. Quis ficar curtindo amigos mais íntimos e minha família. Comemorei meu aniversário, 23 de novembro, sem festa. Almocei com Divina Valéria no restaurante Casa da Mãe (Rio Vermelho). A gente está sempre se encontrando em Paris. O que importa mesmo é que estou aqui nesta cidade maravilhosa e curtindo minhas amizades. Retorno final do mês.
Jacques de Beauvoir
O que anda agitando em Paris?
Luana
Faço parte do conselho de moda para os países do Golfo Pérsico. Sou caçadora de tendências, que, em breve, será profissão na Europa. Seria algo semelhante à consultoria de moda.
Jacques de Beauvoir
Troca isso em miúdos...
Luana
É o seguinte [I]chéri[/I]: levar a proposta a quem interessar possa. Levar pessoas a uma central de compras de alto nível que tenha na bagagem, alta-costura, jóias, acessórios... Minhas clientes são milionárias que adoram se vestir. São mulheres que não gostam de circular no [I]jet-set[/I].
Jacques de Beauvoir
Como levar essa clientela ao lugar certo?
Luana
Meu apelido era "tendência", mesmo antes da palavra entrar para o mundo da moda. É a história da pantera e da onça. Há 20 anos atrás eu já usava collant de dançarino amarrado no corpo. Sempre tive um olho adiante. Por isso, talvez, me tornei caçadora de tendências. Viajo muito. Tenho duas amigas: Manuela von Oppen e Bárbara Pell que têm butiques em Hamburgo (Alemanha) e Strasbourg França), respectivamente. Sou compradora em suas lojas. É bom ficar claro que não quis ser empregadora. O bom senso sinaliza que ser empregado é ter liberdade.
A moda é como um reconhecimento
Jacques de Beauvoir
Andei sabendo que você pretende lançar uma grife...
Luana
Este ano, em parceria com Di Carlo lanço uma linha chamada [I]Passé composé[/I]. Di Carlo (costureiro baiano) foi quem me lançou, é meu guru. Atualmente vive em Miami.
Jacques de Beauvoir
Conte mais desta linha
Luana
Ela vai misturar o gosto francês, americano (estou sempre na Flórida) e quem sabe brasileiro. Fora isso, a cada verão crio 20 peças e distribuo em lojas parisienses. Faço isso sozinha. As vezes, eu e meus chineses...
Jacques de Beauvoir
Seus chineses? Não entendi.
Luana
Os chineses adoram copiar. Lembra aquele bordado chamado richelieu... Certa ocasião, fui na loja de um chinês e comprei uma toalha de mesa de tecido sintético - idêntica a uma toalha de richelieu bordada no Brasil. Não deu outra. Transformei-a em saia, tinturei com cores da bandeira brasileira, aquele verde oliva... e surgiu um modelito! Para a primavera pretendo realizar coisas com chitão. A moda neste verão será estampada em malha. Farei uma adaptação para o algodão. A coleção vai se chamar [I]Bahia, Bahia[/I].
Jacques de Beauvoir
Saudades depois de tantos anos fora?
Luana
Semana passada revirei o baú da felicidade - fotos, lembranças, tanta gente amiga e querida. Porto da Barra, boate Régine´s, Ney Galvão... Estou num período de limpar poeira. Na Bahia, o que conta pra mim, são os amigos.
Jacques de Beauvoir
Do seu comecinho. Eu morava no Largo Dois de Julho e lembro sua passagem final de tarde por lá. Todo mundo saia para conferir aquela figura maravilhosa. Já era passarela?
Luana
Era o seguinte: saia do ateliê de Di Carlo (Avenida Sete) para a visita diária ao visionário da minha vida: o decorador Pedreira, um apaixonado pela poetisa francesa Anna de Noialles. Ele sempre me falava dela. Olha, parece coisa de cartomante. Já morava em Paris quando conheci o conde Gilles de Noialles, não é incrível?! Não deu outra, casamos. Ah! voltando ao roteiro no Largo Dois de Julho, também visitava Carlos Bastos que morava perto. Após toda essa "viagem", enfrentava o ônibus de volta a Liberdade, onde morava.
Jacques de Beauvoir
Depois teve outro casamento
Luana
Oui, chéri. Jacques Blanchet (falecido há um ano e meio) com quem tive um filho depois que casamos - Matthieu que é das Forças Armadas, tem 25 anos e mora comigo. Nessa temporada baiana, falo com ele diariamente.
Jacques de Beauvoir
Você ainda mantém relações de amizade com costureiros franceses?
Luana
Claro. Courrèges e Paco Rabanne, em especial.
Jacques de Beauvoir
Conhece Bethy Lagardère?
Luana
Trabalhamos juntas com os costureiros Ungaro, Givenchy e fizemos parte da Maison de Louis Férraud, na Alemanha. Hoje, a única coisa que temos em comum é o mesmo manequim.
Jacques de Beauvoir
Contato com brasileiros?
Luana
Sim. Muita gente. Ano passado, a título de amizade com Robertinho Chaves, menino nota 10, participei da lavagem da Igreja de Saint-Madeleine onde vesti uma roupa de baiana vinda de Santo Amaro da Purificação. Também assisto a shows de Caetano, Maria Bethânia, Marisa Monte, Ivete Sangalo (que meu filho adora), o grupo de Dança O Corpo... Não sou disponível para oba-obá.
Jacques de Beauvoir
Você comentou que passou o réveillon na Bahia Marina. Muita diferença daquelas festas black-tie de virada de ano que aconteciam em Salvador?
Luana
Totalmente diferente. São outros tempos. Mas, adorei. Serviço e buffet maravilhosos. Controle de higiene. Me senti a rainha da feijoada completa. Detalhe: meu ingresso foi comprado por amigos!...
Jacques de Beauvoir
Esse nosso bate-papo poderia varar a noite. Só que tenho trabalho...
Luana
Vamos encerrar curtindo esse belo [I]coucher-du-soleil[/I] embalado por essa linda Ave Maria que está tocando no rádio. É um momento abençoado!



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