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ENTREVISTAS

Entrevista com Cristina Castro, dançarina, professora e coreógrafa
A contemporaneidade comunga com outras linguagens
POR JACQUES DE BEAUVOIR

Garra e talento traduzem a personalidade de Cristina Castro, dançarina, diretora, coreógrafa e professora de dança contemporânea. Fundadora da Companhia Viladança, é responsável por significativos espetáculos de dança feitos nos últimos anos em Salvador. Premiada, reconhecimento internacional que inclui a Unesco, Cristina é criadora do Programa de Formação de Platéia para Artes Cênicas - Da Ponta da Língua à Ponta do Pé. Atualmente, dirige e coreografa Aroeira, com quantos nós se faz uma árvore, cartaz no Teatro Vila Velha.


Jacques de Beauvoir
Você que tem seu trabalho voltada para a dança contemporânea poderia explicar o porquê de tanta abstração quando este elemento é levado ao palco
Cristina
A cultura e o entretenimento se confundem; se refletem em nossas identidades. Na dança contemporânea tem que saber conhecer a si próprio e entender o que habita dentro de nós. Ser contemporâneo é somar.
Jacques de Beauvoir
Mesmo assim, muitas vezes, fica-se a ver navios quando se assiste a um espetáculo do gênero...
Cristina
Quem estar no palco deve saber o que quer passar; pra quem quer mostrar o seu discurso e como quer fazer.
Jacques de Beauvoir
Ainda assim não fica subjetivo? Não dá a impressão do movimento pelo movimento?
Cristina
A idéia não é só o movimento e sim brincar com os elementos. A contemporaneidade comunga com outras linguagens.
Jacques de Beauvoir
No seu caso, há uma identificação forte com as artes plásticas. Isso vem aparecendo cada vez mais em suas montagens
Cristina
Mexer com o visual é meta importante no que faço. Já assinei vários cenários. Claro, que ajudada por outras pessoas.
A contemporaneidade comunga com outras linguagens
Jacques de Beauvoir
Essa visão fez com que se afastasse do Balé Teatro Castro Alves (BTCA) onde foi integrante por muito tempo?
Cristina
Senti necessidade de um caminho próprio. Companhia oficial tem pouco espaço. Tudo vem como dança.
Jacques de Beauvoir
Não sente mais vontade de dançar
Cristina
Sinto falta do palco como dançarino. Do olho, do embate com o público. Mas gosto de dirigir, coreografar.
Jacques de Beauvoir
O BTCA não é mais o mesmo. Até aquela coisa da preservação das nossas raízes parece ter-se diluído. Efeito globalização?
Cristina
Antes de assegurar o orçamento tem que assegurar o pensamento. A Companhia se preocupa bastante com formação de platéia. Gosto de dirigir, coreografar. Talvez por isso, tenha trabalho solitário. Ou seja, pesquisar, pesquisar...
Jacques de Beauvoir
Reminiscências do seu aprendizado com Lia Robatto (dançarina, coreógrafa)
Cristina
Lia continua tendo um ideal sobre a dança. Foi pioneira de movimento inovador. Da época de Lia pra cá houve um desbravamento da universidade federal e forte tendência ao superficial.
Jacques de Beauvoir
Na busca incessante pela descoberta você andou viajando...
Cristina
Pela identidade brasileira, em especial a baiana, fiz duas viagens à Alemanha, pólo de dança contemporânea. Fui a procura de novo olhar. O estrangeiro não deve só vislumbrar nossa dança como algo exótico.
Jacques de Beauvoir
O que conseguiu...
Cristina
Em Berlim, fiz workshop e representei a Bahia no Festival Move Berlin com o espetáculo DO2 (dança contemporânea). A receptividade foi grande. Em Lorach, apresentamos Caçadores de cabeça (onde fiz parceria com Helena Waldmann), produção independente, resultado do intercâmbio do Institut Goethe com o Teatro Vila Velha.
Jacques de Beauvoir
Fica realmente difícil quebrar barreiras onde a dança folclórica ainda fala mais alto?
Cristina
Procurei ser fiel ao meu trabalho. Sair do estigma: só dançarinos negros; ser obrigatório a percussão; ter rebolado e música ao vivo. Fui muito questionada.
Jacques de Beauvoir
Outras descobertas fora do país
Cristina
Em Moçambique quando realizei workshop para grupo de dança negra pude comprovar que a movimentação do quadril dos dançarinos tinha muito a ver com o trabalho que fazia. Daí o confronto. Procurar outras formas. Abrir nova janela. Não podemos ficar escravo da nossa própria riqueza.
Jacques de Beauvoir
E o espetáculo Aroeira com quantos nós se faz uma árvore, em cartaz no Teatro Vila Velha?
Cristina
Bem, foi um ano de pesquisa. Um desafio. Estudei fotografia, desenho, fui em busca do vídeo. E encontrei a iluminada companhia de Milton Nascimento.
Jacques de Beauvoir
Como foi esta parceria?
Cristina
Ele é flexível, aberto, nunca impôs e estava sempre sugerindo. A coisa começou depois que ele assistiu a Caçadores de cabeças. Pintou a química. Depois de compor e abrir sua música para o meu trabalho, disse 'faça o que você achar mais importante'. De quebra, assinou a direção musical do espetáculo.
Jacques de Beauvoir
Adorei o título: Aroeira com quantos nós se faz uma árvore
Cristina
O título é uma metáfora da árvore com o ser humano. Aroeira (usada pelos índios) significa troncos duros e morada da arara (o sonho). Nós - elementos principais: fotografia (trilha do olhar) e a música.
Jacques de Beauvoir
Perguntinha básica para terminar: onde Márcio Meirelles entra em seu trabalho?
Cristina
Márcio é meu parceiro de teatro e de vida. Trocamos idéias mas respeitamos nossos discursos. Ele não deixa de ser meu mestre como Lia Robatto e Carlos Moraes. É meu espelho também.



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