Retrato Falado

  • POR JACQUES DE BEAUVOIR

    Andréa Elia: uma empreendedora das artes cênicas

    Entrevista com Andréa Elia
    • Andréa Elia é talento, força e muita garra. Uma atriz que está completando 30 anos de palco, com uma história de vida artística enriquecedora e passagens significativas e premiadas no teatro e na televisão. Fundadora da Companhia de Teatro da Bahia em 1998, sob patrocínio da Coelba, juntamente com os atores Wagner Moura e Ana Paula Bouzas, Andréa já dividiu o palco com os atores João Miguel, Harildo Deda e dirigida por grande parte dos diretores teatrais baianos, além de vencedora do Concurso Melhor de 3 do Faustão, o que lhe valeu um contrato com a Rede Globo em 1995. Há vinte anos vem ministrando aulas para formação básica em Teatro para estudantes da área e oficinas de desenvolvimento da comunicação para profissionais liberais, sem contar O ATO, responsável pela formação de novos grupos no cenário cultural baiano, vencedores por anos consecutivos ao Prêmio Braskem de Teatro. Atualmente é diretora artística do recém inaugurado Teatro da Cidade do Villa Campus de Educação, na Paralela. Para contar mais, Andréa bateu um papo para a coluna RETRATO FALADO, página do site Bahia Vitrine.

    • Jacques de Beauvoir
      O domínio de palco que você tem está entrelaçado ao seu bacharelado em Direito? Você é uma pessoa forte no palco, há visto o excelente monólogo A Caixa Não é de Pandora, que celebrou seus 30 anos de carreira...

      Andréa Elia:

      Muito instigante a sua pergunta, que provém da sensibilidade de um olhar que conhece a minha trajetória, além de propor um cruzamento entre o Direito e o Teatro. Segui o Teatro, mas tive uma atração inicial pelo Direito porque vinha justamente da teatralidade do Tribunal. Eu me imaginava argumentando, usando a oratória em defesa da Justiça, me via atuando e isso me fascinava. Ao decidir pelo Teatro como profissão, sinto que tinha escolhido a melhor tribuna: o PALCO e abracei esta vocação incluindo todas as suas múltiplas funções. Trabalhando por trás do palco, no centro dele e agora participando da abertura de um novo palco na cidade. No espetáculo citado A Caixa Não é de Pandorainterpretava uma escritora, Pandora Lobo, que falava para uma plateia de acadêmicos e se colocava na arena, expondo as fragilidades e matizes de seu feminino. Ao criá-la eu escolhi o risco de celebrar meus 30 anos de carreira. O palco sempre foi e é a minha arena, mas minha natureza gosta de desafios, quando piso no palco eu aprendo a me lançar aos leões e DEVORAR a cena! Levo esta voracidade para todos os ofícios que o Teatro abrindo a sua caixa mágica me revelou.

    • Jacques de Beauvoir
      E agora você parte para duas frentes: a “crise” normal que permeia sempre a classe artística e a própria crise do País. De que maneira pretende driblar esse jogo de regras como diretora artística do Teatro da Cidade, projeto contemporâneo que integra o Villa Campus de Educação, localizado na Avenida Paralela, inaugurado na semana passada?

      Andréa Elia:

      Nunca esqueci um artigo de Nizan Guanaes no qual ele falava da expansão da agência DM 9 na época do Plano Collor, enquanto os efeitos da crise se abatiam sobre os brasileiros de forma brutal. Ele marcou uma reunião na McDonalds, dizendo que se não tinham agência, a reunião seria lá. Conhecemos a nossa força extraordinária na crise, porque o conhecimento de nós mesmos é relativo, é o que conseguimos ver no nosso desempenho ordinário, na zona de conforto do cotidiano. Quando a ordem dos fatores realmente se altera podemos nos impactar com a nova soma dos resultados. Num ano de crise fui surpreendida pelo convite do Dr. Eugênio Barreto e da Sra. Viviane Brito, mantenedores do Villa Campus de Educação para dirigir um teatro construído pela instituição. Podiam construir um parque, ampliar a escola, construir uma pracinha, mais quadras, mas não, eles se lançaram no risco do imponderável, se lançaram nos campos da Cultura numa visão empreendedora, atuando como visionários, de verdadeiros educadores. Como não seguir o chamado? Um chamado na crise que potencializa tantos sonhos de construção não chega como sinal de crise e sim como uma chama de renovação. Abrir um teatro é só o primeiro ato, mantê-lo ativo requer muita criatividade e é na crise que aprendemos a usar recursos que até não conhecemos. A própria cerimônia de abertura do Teatro da Cidade espelhou isso, não tivemos um espetáculo, as pessoas foram aplaudir o Teatro, a casa. No palco como anfitriã e atriz propus um encontro de artistas talentosíssimos e juntos estávamos dizendo a toda classe artística: venham! Vamos ocupar este palco! A crise fomenta PARCERIAS. Homenageamos João Miguel, ator baiano premiado em Cannes, mas ele trouxe a força do Circo. Acredito muito no coletivo e na força de fazer acontecer. Os recursos chegam quando o propósito é firme e serve ao bem comum.

    • Jacques de Beauvoir
      Por ser uma instituição de ensino, o Villa tem ambiente próprio para realização de formaturas e outros eventos acadêmicos. Isso facilitaria a manutenção desse teatro de 260 lugares com programação continua? E a localização, em bairro mais distante do centro, poderia provocar certo esvaziamento. Normalmente o público é jovem e o dinheiro apertado!

      Andréa Elia:

      Teatro da Cidade é muito belo, é dotado do diferencial de ter estacionamento próprio e segurança com acústica primorosa como não utilizá-lo em toda a sua potência? Uma casa de espetáculos deve acolher e valorar toda celebração em torno da cultura. Ritos como formaturas pedem a dignidade de um palco para acontecer. Queremos que o palco seja a casa de muitos empresários que se apropriem dele como espaço ideal para fomentar novos projetos e realizações. De educadores que querem ver refletido na beleza de um palco o feito de seus alunos. Não vamos prescindir disso. Faremos da agenda do Teatro uma agenda que inclui a cada dia da semana um segmento diferente. Nos fins de semana temos muitas famílias residentes no entorno, condomínios em franca expansão, Le Parc, Alphaville, Aldeia Jaguaribe, as famílias do Villa, enfim, temos o dever de oferecer uma programação de qualidade que atenda a todas as idades. O trabalho é trazer programações que eduquem e formem a nossa plateia. Precisaremos de um tempo de namoro para conhecer o que desejam. Precisamos também ampliar as distâncias, ver Salvador como um centro urbano de franca expansão, há muita vida acontecendo em muitos bairros. No Rio de Janeiro os espetáculos fazem circuito pelos Teatros da Cidade, do Teatro Ipanema a Barra da Tijuca e nosso momento é este. Assim como temos várias igrejas, temos vários teatros para todos os públicos. Vamos identificar como será o nosso, mas penso que um Teatro que chega com uma "cara" propondo uma identidade ele provoca o seu público a se identificar.

    • Jacques de Beauvoir
      Expertise não lhe falta. Foi fundadora da Companhia de Teatro da Bahia em 1998, sob patrocínio da Coelba, ao lado dos atores João Miguel eHarildo Deda, além de dirigida por grande parte dos diretores teatrais baianos. E mais: vencedora do Concurso Melhor de 3 do Faustão, valendo um contrato com a Rede Globo em 1995.

      Andréa Elia:

      Interessante você trazer a Cia de Teatro da Bahia, grupomuito forte na história de nosso Teatro. Dirigida por Fernando Guerreiro contracenei com Wagner Moura e João Miguel, esse último que reencontrei na abertura do Teatro da Cidade. Espero promover e ser anfitriã do encontro de muitos talentos e que aceitar a Direção Artística do Teatro da Cidade potencialize ainda mais a minha trajetória como atriz. Por vezes somos muito excludentes, como se seguir um caminho excluísse outro. Tudo está no caminho e por estar no caminho cheguei aqui. Espero ter a alegria de estrear um espetáculo meu no Teatro da Cidade, mas cada papel requer seu tempo para ser desempenhado. Agora é tempo de cuidar do Teatro da Cidade, trabalhar pela sua chegada e existência. Vida longa a ele e a todos os sonhos que acolhe!

       

    • Jacques de Beauvoir
      E a ATO, metodologia ministrando aulas para formação básica de teatro e oficinas de desenvolvimento da comunicação para profissionais liberais... É mais um tento seu. Fale desse trabalho que já rende duas décadas...

      Andréa Elia:

      O convite para direção do Teatro incluiu também um notório reconhecimento à trajetória do ATO. Desde setembro, o Curso ATO já está acontecendo no palco do Teatro da Cidade com turmas lotadas de estudantes do Villa do Ensino Fundamental ao Médio. Em 2016, abriremos para o público externo, crianças, adolescentes e profissionais que desejam aprimorar a comunicação. A Direção do Teatro integra o setor de Cultura, Artes e Esportes da instituição magistralmente regido pelo Diretor Rubens Dória, um homem vocacionado a produzir cultura e que abarca o desafio de fazer a história deste teatro acontecer. Os alunos esperavam com muita alegria o Teatro chegar em suas vidas. Que mérito participar de aulas com uma atriz de 30 anos que vivencia o que ensina e pisando num palco que é deles! O Villa realiza há muitos anos o Festival Canta Villa, um festival de música, coordenado por Dhida Barreto. Por isso, fiz questão de inserir na cerimônia de abertura a participação da vencedora deste ano, a aluna Rafaela Ferreira, que encantou a todos com o seu brilho, representando sonhos de uma nova geração.  O Teatro da Cidade marca e integra à sua identidade, a missão de educar pela Cultura.