8
Jun

QUARTA-FEIRA,2016


S.O.S OSBA
por Pedro Robatto



A Orquestra Sinfônica da Bahia pede socorro. Cortes de orçamento, escassez de músicos e indefinição da forma de gestão podem levar ao fim da Orquestra. Fundada em 1982, a OSBA vem perdendo músicos de excelência nos últimos anos por vários motivos. Muitos se aposentaram por tempo de serviço ou mesmo por problemas de saúde (vale resaltar que a atividade de músico pode provocar danos a saúde como a perda auditiva, inflamações musculares, problemas de postura, etc..), outros não puderam renovar seus contratos no regime REDA (contratos por tempo limitado), e por fim, a falta de estabilidade e os baixos salários levaram músicos a procurarem outras Orquestras com melhores condições.

 

Para uma Orquestra poder funcionar plenamente, tocando o grande repertório sinfônico, são necessários, aproximadamente, 100 músicos. Atualmente a OSBA está com pouco mais de 50 e destes, somente 5 primeiros violinos, quando o mínimo seriam 12. Acrescenta-se a isso o fato de que nos últimos 3 anos perdemos 2 grandes Spallas; o Samuel Dias e a Priscila Rato que não moram mais na Bahia, deixando um vácuo não preenchido até hoje. Além dos violinos, faltam músicos chaves como o primeiro trombone e o spalla dos violoncelos.

 

Atualmente é impossível tocar uma sinfonia de Tchaikovsky ou mesmo de Villa Lobos! O Estado da Bahia, que mantém a Orquestra através da Secretaria da Cultura, não abre concurso para músico efetivo há mais de 15 anos e recentemente, com o agravamento da crise este ano, nem foram abertas as vagas tipo REDA. A falta de verbas também impossibilita a contratação de músicos por cachê para a realização de um concerto especifico.

 

 A única alternativa para a Orquestra não ficar parada é fazer apresentações de grupos pequenos (música de câmara), mas que não podem tocar nenhum repertório dito “Sinfônico”. Esta lamentável situação vem sendo alertada pelos músicos há muito tempo e o Governo da Bahia sinalizou a intenção de “Publicizar” a OSBA criando uma OS (Organização Social) que seria responsável por gerir a Orquestra de forma mais independente ainda que com o financiamento do Estado.

 

O primeiro diretor da Orquestra a propor efetivamente a criação de uma OS foi o Ricardo Castro há sete anos. Neste sistema, os novos músicos seriam contratados em regime CLT e os músicos antigos manteriam seus contratos como efetivos. A gestão de uma OS agilizaria a captação de recursos privados e a formação de parcerias. Esta proposta chegou a ser divulgada no diário oficial de 2014, mas com a crise política e econômica o plano não saiu do papel...

 

Durante os seus mais de 30 anos, a Orquestra Sinfônica da Bahia atuou junto a grandes artistas nacionais e internacionais como o tenor Luciano Pavarotti, o maestro Isaac Karabtchevsky, a mezzo soprano Montserrat Caballé e os balés Kirov, Bolshoi e da cidade de Nova Iorque, além da realização de grandes óperas como Tosca e Madame Butterfly de Puccini. No âmbito da música popular brasileira, a OSBA fez parcerias com Gilberto Gil, Gal Costa, Egberto Gismonti, Sivuca, Carlinhos Brown, Luiz Caldas, Saulo, entre outros.

 

É importante também ressaltar que a nossa orquestra foi um importante veículo para divulgação da música contemporânea brasileira, estreando obras principalmente de compositores baianos como Paulo Costa Lima, Wellington Gomes e Ernst Widmer. Atualmente o diretor da OSBA é o Maestro Carlos Prazeres que tem feito um excelente trabalho de popularização e divulgação da Orquestra, formando plateia e atraindo o público jovem.

 

O Cineconcerto que contemplou um repertório de trilhas sonoras de filmes consagrados, por exemplo, foi um projeto que obteve um sucesso de público nunca antes visto na historia da OSBA, lotando o Teatro Castro Alves em todas as suas edições. Em 2013 a OSBA tinha quase 80 músicos e foi possível fazer concertos de alto nível musical com renomados maestros e solistas. Infelizmente nesses últimos 3 anos a OSBA perdeu quase 30 músicos, o que a impossibilita de fazer um trabalho digno de uma Orquestra Sinfônica.

 

O investimento para levantar a Orquestra novamente não seria muito alto. Segundo a direção da OSBA, o orçamento de 2013 foi de 13 milhões de reais. Este ano o valor foi reduzido para 6 milhões. Para retomar nossas atividades, com ao menos 70 músicos, seria necessário o aporte de mais 7 milhões. Um orçamento de 13 milhões ainda não seria o ideal, mas já possibilitaria a contratação de músicos essenciais para seu funcionamento, sem contar com o ganho social e cultural para o estado.

 

Ao nível de comparação, a Orquestra mais bem estruturada do Brasil, a OSESP (do Estado de São Paulo) conta com o orçamento anual de 100 milhões de reais. Não podemos permitir que esta rica história de mais de 30 anos desapareça, principalmente neste momento em que a OSBA desfruta de um novo publico e do prestigio de grandes artistas. Esperamos do Governo da Bahia uma ação mais que urgente para que a Orquestra não perca mais músicos preciosos, podendo voltar o quanto antes às suas atividades de repertório sinfônico, divulgando a cultura Internacional, bem como a música Brasileira. Salvem a nossa ORQUESTRA SINFÔNICA DA BAHIA, patrimônio cultural da Bahia!!!

 

Pedro Robatto, 49 anos, desde 1989 é principal clarinetista da Orquestra Sinfônica da Bahia e também Professor Doutor em Música pela Universidade Federal da Bahia.